25 de janeiro de 2017

“Apartheid gay”

No século XX, tivemos acesso a um termo, o “apartheid”, que significa “separação”. No caso, separação de negros e brancos, muito associada à África do Sul e a seu violento regime de segregação racial. Mas esse tipo de segregação, não necessariamente devido à cor da pele, ocorreu também em outros países.
Na década de 1930, os alemães, além de várias leis antissemitas, promoveram boicotes nazistas aos estabelecimentos comerciais comandados por judeus e também a criação de guetos, antes dos campos de concentração e da solução final. Nos Estados Unidos, havia lugares reservados a negros em ônibus ou lanchonetes, por exemplo. Aliás, quem nunca ouviu falar de Rosa Parks ou sobre o protesto de Greensboro? Rosa Parks, uma costureira negra americana, em 1955, recusou-se a dar seu lugar no ônibus para um branco e foi presa por isso. Já no ano de 1960, quatro estudantes negros decidiram ocupar lugares de brancos na lanchonete Woolworth’s, o que desencadeou protestos semelhantes por todos os Estados Unidos, protestos que ficaram conhecidos como “sit-ins”.
Pois as mesmas pessoas que assistem a filmes que contam os horrores da segregação e ficam indignadas com tais situações, acham aceitável que gays se reúnam em bares e boates feitas para eles. Muitas dessas pessoas se comportariam hoje como os brancos racistas que discriminaram e agrediram os participantes dos sit-ins se os gays saíssem de seu gueto e manifestassem em massa seu afeto em público como fazem os heterossexuais a todo momento.
Alguns jovens gays vêm quebrando barreiras, seguem o exemplo dos jovens negros de Greensboro, exercem o mesmo direito dos heterossexuais, ou seja, beijam-se em público. É claro que tais beijos não são exibidos sem uma forte tensão, já que a chance de agressão verbal e física é bem real. Imaginemos "sit-ins gays" no Brasil. De repente, os gays resolvem sair do gueto e começam a se beijar em público à luz do dia, nos shoppings, nos bares, nas lanchonetes, assim como fazem os casais heterossexuais. Não preciso dizer que a violência contra gays atingiria a visibilidade.
O “apartheid gay” continua, e a maioria dos heterossexuais acha isso algo completamente aceitável, assim como achava a maioria dos brancos das décadas de 1950 e 1960 nos Estados Unidos em relação aos negros, ou a maioria dos alemães na década de 1930 em relação aos judeus. O “apartheid gay” é realidade no Brasil, e não só aqui. Há restrições não ditas, em ônibus, lanchonetes, lojas e tantos outros estabelecimentos, em relação ao comportamento gay. Assim como o racismo no passado, a homofobia ainda é exercida hoje com certa naturalidade.


Warley Matias de Souza.

11 de dezembro de 2016

Gramática e poesia

Eu estava relendo uma edição da gramática descritiva do Perini[1], em que ele dizia: “Concorda-se, geralmente, que o grande objetivo do ensino de língua portuguesa é levar os alunos a ler e escrever razoavelmente bem. Pergunto, então: será que o estudo da gramática pode ajudar na aquisição da leitura e da escrita?”[2]. Ele mesmo responde: “Acredito que a resposta é negativa. Tenho encontrado pessoas que crêem na eficácia de um conhecimento de gramática para melhorar o desempenho naqueles dois campos fundamentais [leitura e escrita]. Mas nunca podem apresentar evidência em favor de sua crença[3]. Aqui, Perini não só contesta o benefício da gramática na “aquisição da leitura e da escrita”, como também trata a defesa do conhecimento de gramática para “melhorar o desempenho” do aluno, na leitura e na escrita, como uma “crença”, ou seja, algo sem comprovação científica, o que só indica que alguns pesquisadores da área da educação precisam, de forma científica, mostrar se isso é ou não uma “crença”.
Perini continua: “Ninguém, que eu saiba, conseguiu até hoje levar um aluno fraco em leitura ou redação a melhorar sensivelmente seu desempenho apenas por meio de instrução gramatical”[4]. Nesse ponto, é importante frisar que, apesar de iniciar seu raciocínio com foco na “aquisição da leitura e da escrita”, o autor passa a considerar a possibilidade do uso da gramática como auxiliar da leitura e da escrita.
Porém, ele prossegue: “Muito ao contrário, toda a experiência parece mostrar que entre os pré-requisitos essenciais para o estudo da gramática estão, primeiro, habilidade de leitura fluente e, depois, um domínio razoável da língua padrão”[5]. Nessa fala, o autor demonstra que o domínio razoável da língua padrão é secundário e, portanto, menos importante do que a leitura fluente, que deve existir antes mesmo do estudo da gramática. Dessa forma, não seria a gramática importante para a leitura, mas a leitura deveria preceder o estudo da gramática.
O linguista conclui: “Assim, para estudar gramática com proveito, é preciso saber ler bem — o que exclui a possibilidade de se utilizar a gramática como um dos caminhos para a leitura”[6]. Assim, ele inutiliza o estudo da gramática para fins de aprimoramento na leitura, já que, para estudar gramática, segundo ele, “é preciso saber ler bem”. No entanto, esse caminho de raciocínio é problemático, pois desconsidera que a leitura é mais do que uma aquisição, mas um processo constante de aperfeiçoamento.
Devido às práticas de leitura e análise de poesia com meus alunos, preciso discordar da afirmativa de que a gramática não pode ser utilizada como “um dos caminhos para a leitura”. Apesar de Perini afirmar na sequência que o estudo de gramática não é totalmente inútil, ele é peremptório ao afirmar a exclusão da “possibilidade de se utilizar a gramática como um dos caminhos para a leitura”.
Contudo, o conhecimento gramatical ajuda sim na compreensão de um poema. Não estou aqui para defender nenhum tipo de normatividade, não é o objetivo deste texto. Entretanto, essa afirmação de que o conhecimento gramatical não é necessário para a leitura é recorrente já faz alguns anos, apesar de, na prática, mostrar-se equivocada.
A leitura de poema ainda é um desafio para o estudante brasileiro do ensino básico, ação que se equipara aos cálculos matemáticos que tanto lhe perturbam. A maioria dos estudantes chega ao primeiro ano do ensino médio completamente despreparada para entender um poema, e estou falando do aspecto linguístico do poema, não do seu caráter conotativo, esse é outro problema.
Um dos motivos dessa dificuldade é que os alunos trazem uma ideia errônea de que a leitura literária não é um processo racional, mas puramente subjetivo, ou seja, de que toda leitura é válida, mesmo aquela sem nenhuma comprovação. Para eles, vale qualquer coisa, principalmente inventar leituras que não existem. Muitos acreditam que toda poesia só fala de amor. O eu lírico faz metalinguagem, e o aluno vê amor. O eu lírico fala de política, e o aluno vê amor.
Outro motivo é a preguiça em trabalhar, em desvendar o poema. Os estudantes fazem uma primeira leitura e dizem que é difícil. E isso significa: paro por aqui. Tudo que é difícil é rejeitado. Então, por que continuam vivendo? A vida é difícil. Fazem uma primeira leitura e já chegam à conclusão de que não conseguem ler. Mas eu também não consigo entender completamente um poema na primeira leitura, a não ser que seja um poema ruim.
É preciso trabalhar, buscar os detalhes, e encontrar o sentido, que está lá no texto, em seus mecanismos textuais, intertextuais e extratextuais. Então percebo que a primeira dificuldade de entendimento não está nas figuras de linguagem, na plurissignificação, está na compreensão dos mecanismos linguísticos.
Vírgulas. Esses alunos não conseguem perceber que a vírgula pode estar indicando um vocativo, que o eu lírico está falando com alguém ou com alguma coisa. Às vezes, essa vírgula é explicativa; mas eles não conseguem perceber isso. Pronomes relativos como “cujo” e “o qual” (e suas variações), além do “que”, também são problemáticos. Eles veem um “cujo” e não sabem que esse relativo indica relação de posse entre o elemento anterior e o posterior, nem que o “cujo” concorda com o elemento posterior. Aliás, na escrita, usam “cujo” como se fosse um “que”. Não conseguem fazer relação de sentido porque lhes falta conhecimento morfossintático, afinal a semântica não depende só do contexto extralinguístico. Para a maioria deles, “o qual”, “no qual”, “do qual” têm o mesmo sentido, é uma questão de escolha, e não fazem a relação adequada.
Outra dificuldade é identificar os hipérbatos, dificultadores da leitura. Essa figura de linguagem configura-se na inversão da ordem direta da oração (sujeito, verbo, complemento ou predicativo). Primeiro, o aluno precisa localizar o verbo, para então perceber o sujeito que concorda com ele, e localizar eventuais complementos, o que ele não consegue fazer.
Outro problema,  na leitura de poemas do século XIX e séculos anteriores, é identificar o “tu”. O aluno vê um verbo flexionado na segunda pessoa do singular, mas ele não conhece tal flexão, não percebe que o eu lírico dialoga com um interlocutor. Isso para citar os casos mais frequentes com os quais me deparo ao acompanhar o aluno na leitura e análise de um poema. Então, eu mostro-lhe as inversões, a função dos relativos, explico-lhe os usos da vírgula. Assim, ele tem o primeiro entendimento e diz: ah, é isso o que o poema está dizendo?
Então, se esses alunos tivessem um conhecimento gramatical (linguístico) formal básico, eu poderia estar ocupado em refletir com eles sobre a plurissignificação e o conteúdo do poema. Pois eles contarem as sílabas dos versos e perceberem simetria e rimas, não é problema, mas perceberem as relações morfossintáticas impede consideravelmente que o aluno entenda o que lê. Além disso, há uma escassez de vocabulário, pelo pouco hábito de leitura, o que se resolve com um dicionário. Assim, um conhecimento básico de gramática formal é necessário não só para o bom empenho em uma escrita formal, mas também para a leitura de poesia.
A gramática não é o principal elemento nessa leitura, mas é a base, pois se o aluno não entende as relações denotativas, como poderá atingir a conotação? Se ele não consegue entender o óbvio, porque lhe falta reflexão em torno da língua e suas regras, como vai poder atingir o entendimento lírico? Resta-lhe então apenas inventar leituras, a partir de palavras e significados isolados, sem nenhuma relação pertinente com o poema lido.
Devo deixar claro que não estou defendendo que basta estudar gramática para entender um poema. Estou afirmando, por experiência em sala de aula, que sem conhecimento gramatical, a leitura  de um poema é prejudicada, já que devemos partir do simples para o complexo, e o simples a que me refiro é o sentido denotativo, que é comprometido pelo desconhecimento de algumas regras gramaticais.

Warley Matias de Souza.



[1] PERINI, Mário A. Gramática descritiva do português. São Paulo: Editora Ática, 2002.
[2] PERINI, 2002, p. 27, grifos no original.
[3] PERINI, 2002, p. 27, grifo nosso.
[4] PERINI, 2002, p. 27, grifo nosso.
[5] PERINI, 2002, p. 27-28.
[6] PERINI, 2002, p. 28, grifo nosso.

7 de dezembro de 2016

Discurso de formatura

Professor homenageado
Turma 2016 do Colégio Caetano

A minha relação com o ensino médio é uma relação que se constrói lentamente, dia a dia. No 1o ano, os alunos me tratam com reserva, cuidado, receio mesclado a certa admiração. Pois eu sei que tenho uma fama, que é passada de ano a ano, com ligeiras variações, para as turmas que chegam. Leva algum tempo pra que os alunos consigam perceber o que é apenas uma “fama” e o que é a realidade.
Porém, com vocês, aconteceu algo inédito, que, acredito, jamais se repetirá. Com vocês, eu tive aquele momento mágico que chamam por aí de “amor à primeira vista”. Não houve uma aula, desde a primeira, em que eu não tenha tido enorme prazer em estar com vocês. Nunca vivenciei dramas ou situações desagradáveis ali. E, apesar de eventuais diferenças, nunca tivemos atritos sérios. E isso porque vocês são generosos e especiais.
Minhas opiniões sempre foram ouvidas e respeitadas e sempre me esforcei pra respeitar a opinião de cada um de vocês. Vocês foram tão generosos e receptivos que eu pude mostrar-lhes o mais profundo de mim, apesar de me ocultar muitas vezes em ironias, pois um pouco de mistério torna a vida sempre mais interessante.
Mas, para não dizerem que virei um romântico e estou idealizando uma turma perfeita, devo dizer que nem tudo foram flores. Me estressei em alguns momentos com a preguiça em relação à leitura e fui agressivo na defesa da criticidade em detrimento da alienação. E tive o prazer de ver a luz do conhecimento e da criticidade inundando a mente de alguns que, no início, queriam persistir no conforto da ignorância. Uns evoluíram mais, outros menos, mas todos foram tocados pela luz.
E, no final deste caminho, posso dizer que essa turma tem algo de especial, algo que falta ao mundo inteiro: tolerância. Vocês se tornaram um exemplo de tolerância, no respeito àqueles que têm crenças e àqueles que não as tem, em respeito à diversidade sexual e de gênero, em respeito às etnias e à diversidade cultural, que só pessoas superiores e inteligentes conseguem ter.
Com alguns de vocês, tive uma troca intelectual que não consegui ter com muitos professores, mestres e doutores, pois eles estavam cansados, entediados ou cheios de certezas, enquanto vocês ainda podiam se apaixonar pelas ideias. Agradeço a esses alunos por aguçarem ainda mais meus pensamentos.
E obrigado a toda a turma pelo carinho, que nunca faltou, seja no olhar, na voz, nos gestos, nos apertos de mão ou nos abraços nem sempre frequentes, apesar de um ou outro constante, como o abraço-chiclete do incansável Luquinha. Sentirei saudade.
Quando vocês me homenagearam em outubro, na sala de aula, entendi que eu havia feito alguma coisa, essa coisa tão linda que é construída pela troca de ideias, conhecimentos, afetos e silêncios. Essa coisa que me permite continuar apesar do cansaço e das desilusões.
Enfim, “povo”, estas são minhas últimas palavras pra vocês, melancólicas, condizentes com o tom de uma despedida. Às suas famílias, digo-lhes que vocês, meus alunos, são merecedores de todo o orgulho. Eu tenho muito orgulho de vocês.
Sentirei saudade, sentirei muita saudade de vocês. Mas sei que estarei com vocês pra sempre. Quando disserem “não”, eu estarei com vocês. Quando perguntarem “por quê?”, eu estarei com vocês. Quando se incomodarem com a realidade, eu estarei com vocês.
Obrigado por tudo.

Warley Matias de Souza.

14 de novembro de 2016

Neofascismo

O fascismo nunca morre, apenas adormece por algum tempo, para adquirir mais força e energia de destruição. No fascismo, há sempre opressores e oprimidos, e os opressores são brancos, heterossexuais, religiosos, conservadores. Mas sempre há um integrante de minorias que, em sua suprema ignorância, acaba enaltecendo-o. 
Nestes últimos três anos, ele se mostrou, com cara de propaganda de margarina, verde e amarela, pelas ruas do Brasil. Culminou em um impeachment patrocinado por empresários insatisfeitos com os prejuízos econômicos produzidos pelo governo, já que o capitalismo é alimentado pela egolatria das elites, que, quando não têm seus desejos satisfeitos, batem o pé, como criança mimada, e berram “Eu quero!”. E são sempre atendidas.
Porém, quando se pensava que a “cadela do fascismo” estava no cio apenas no Brasil, surge a notícia de que Donald Trump é eleito presidente dos Estados Unidos, o Império mais poderoso de todos os tempos. Diante disso, os fascistas do mundo inteiro se regozijaram e sentiram-se fortalecidos.
Os indicadores mostram que os monstros fascistas saíram do armário para ficar por um bom tempo por aí a fazer suas monstruosidades. Assim, o mundo então caminha para uma grotesca “polarização”: fascismo versus Estado Islâmico.
A isso chegamos, ao extremismo máximo, ao beco sem saída.


Warley Matias de Souza.

O cidadão médio

O cidadão médio é maioria absoluta, ele é a regra e não gosta de exceções. A exceção perturba-o, ela tem um quê de ameaça que perturba o seu pensamento médio ainda muito pouco distante do instinto animal.
Ele só se importa com o conhecimento funcional, para um fim. Entende o mundo a partir de sacrifício e recompensa. Mas é preguiçoso no pensar, todo esforço mental o entedia e, muitas vezes, provoca-lhe irritação. Busca o sexo, a casa própria, o casamento, os filhos, o carro, o empregão. É domesticado, vai a aniversários, casamentos, formaturas e funerais, sem qualquer questionamento. Se não questiona a banalidade do dia a dia, que dirá questões outras.
É egocêntrico, mas é solidário porque tem medo do inferno ou porque os outros estão olhando. Preocupa-se demasiadamente com o olhar do outro, não ousa sair das convenções, a não ser quando rasteja nas sombras da hipocrisia.
O cidadão médio é autoritário, faz de tudo para que a exceção obedeça às suas convenções, não consegue ver além e tem pouca ou nenhuma imaginação. Os seus delírios são implantados em sua mente sugestionável pelos clichês da televisão. Ele precisa de sexo, violência ou piada ruim para manter-se acordado.
Qualquer conhecimento mais elaborado provoca-lhe o sono, a arte provoca-lhe o sono. E quando é questionado em suas superstições, ele fica enfurecido e parte para a violência.
As exceções têm dificuldade em viver em um mundo médio, todo estruturado para o cidadão médio, que ridiculariza a inteligência e acredita que o que não serve para nada não tem valor.
Esse é o cidadão médio, inconsciente da própria mediocridade.


Warley Matias de Souza.

6 de novembro de 2016

A mediocridade escolar

Constatei, faz já algum tempo, que a educação básica brasileira é feita para medíocres. Talvez seja uma característica estrutural não só da educação, mas do próprio país. Aqui, os medíocres têm valor, as grandes mentes vivem nas sombras. Quando nas escolas se fala em “aulas dinâmicas” (algo que ninguém sabe exatamente o que é), o objetivo disso é tirar os alunos medíocres do tédio. Pois os alunos com mentes superiores não precisam de dinamismos infantiloides, precisam apenas de um problema para resolver. Afinal, professor vestido de palhaço, que conta piadinhas e faz “dinâmicas” debiloides, para as grandes mentes, não passam de seres ridículos.
Em nossas escolas, se o professor lança um problema difícil, os medíocres se entregam ao tédio, pois para eles é chato pensar. Como são maioria, a escola vê nisso um problema e busca nas “aulas dinâmicas” a solução. Nunca ouvi um dirigente ou coordenador de uma escola dizer ao professor que ele deveria propor problemas mais difíceis, porém ouço todos os anos a cobrança de que ele faça aulas mais dinâmicas.
Quando é exigido do aluno medíocre que ele pense, este torce o nariz e diz que aquilo tudo é muito chato, e isso mobiliza toda uma comunidade escolar para fazer o impossível: agradar ao medíocre. A escola nunca agradará ao medíocre, porque o ambiente do conhecimento o enfada, lembra-o de que poderia estar dormindo, comendo, batendo punheta ou falando sobre inutilidades, ou seja, para ele, estar na escola é uma perda de tempo.
É natural que a maioria da população seja mediana. Mas não são os medianos que transformam o mundo, são as grandes mentes. Porém, a escola gasta toda sua energia com os medíocres, e aqueles que fariam a diferença são imobilizados, inutilizados, castrados. Os medíocres sempre serão entediados diante do conhecimento, pois todo esforço mental os entedia. Não há solução para isso, a não ser uma educação sem conteúdo, realidade brasileira já existente. Dessa forma, um país que valoriza o mediano, será sempre um país mediano, isto é, medíocre.
O curioso é que as grandes mentes precisam de muito pouco. Não precisam de grandes aparatos tecnológicos nem de acrobacias de professor showman. Aliás, abominam as piadinhas corriqueiras de professores-palhaços. A elas basta dar-lhes o que pensar, um problema, seja de caráter concreto ou abstrato, e farão disso algo que valha a pena. É claro que algumas boas ironias também são bem-vindas, pois essas meninas e esses meninos têm muito senso de humor, só que são mais exigentes e se entediam com piadinhas médias.
Então, o que fazer com os medíocres? Essa pergunta vem sendo eufemisticamente feita há anos. Assim se explica a mediocridade do ensino básico no país. Então, por que não começamos a perguntar o que fazer com as grandes mentes? Para dar autoestima a um medíocre, rios de dinheiro e energia mental são gastos todos os anos. Mas para dar alimento às grandes mentes, só basta uma pergunta, um problema.
Talvez, se a educação brasileira fosse comandada por grandes mentes e não por medíocres, talvez, só talvez, fosse diferente.


Warley Matias de Souza.

5 de novembro de 2016

Doutrinação fascista

Atualmente, é comum os professores de algumas escolas particulares do Brasil receberem avisos da direção que lhes recomendam não se posicionar partidariamente. Além disso, a defesa de minorias, nessas escolas, pode gerar problema para qualquer professor. E como a escola particular visa ao lucro mais do que à educação, defender a igualdade e a diversidade pode custar o emprego do professor. Claro que a demissão será “maquiada”, uma desculpa será inventada; mas o professor saberá, em seu íntimo e memória, que ter opinião política no Brasil é perigoso.
Ser um professor ateu e manifestar isso também pode gerar a punição máxima, a demissão, pois as fogueiras punitivas são um sonho não muito distante para os fascistas brasileiros, que comandam a nossa educação de forma alguma laica. A lei proíbe a discriminação em ambiente de trabalho. Se o dono de uma escola demitir o professor porque este é ateu, homossexual, negro etc., sua escola pode ser fechada, já que a indenização pode levá-lo à falência. Uma grande mentira essa. O professor precisará comprovar que foi discriminado, e nenhum funcionário da escola, nem os colegas de profissão, vai depor a seu favor, pois é escravo do salário de fome que lhe é pago.
Recentemente, o governo lançou uma medida provisória para reformar o ensino médio. Atitude de governo fascista, autoritário. Há quem diga mesmo que medidas provisórias são inconstitucionais. Mas não entrarei nesse ponto, já que meu conhecimento do labirinto legal não permite. Esse governo, erigido sobre a deslealdade, está comprometido, e desesperado, em mostrar serviço, por isso toma atitudes “para inglês ver”. Afinal, com a proposta, a escola pública continuará como é hoje, isto é, um lixo completo; apenas consumirá mais dinheiro público para manter alunos por mais tempo na escola. Estes continuarão a não aprender nada e a viver no seu limbo de ignorância, de forma a serem preparados para a escravidão que lhes é reservada. Sem formação adequada, servirão a contento as elites que governam este país, que é democracia no papel, mas oligarquia na prática; aliás, é também laico no papel, mas teocrata na prática.
Nas escolas particulares, quem manda é o cliente, e hoje a clientela mostra sua face fascista, depois de alguns anos oculta nas sombras, em que pensamos que o país estava se transformando. Os fascistas no Brasil vão à missa aos domingos ou a cultos protestantes, governam o país com a Bíblia em uma mão e o chicote na outra. A educação brasileira hoje é um prédio, com elevador de serviço reservado às “empregadinhas” para que elas não incomodem com sua cor e sua pobreza.
A escola pública foi assassinada quando aderiu à aprovação automática, aceitou ser depósito de “enjeitados” e desistiu de ser instituição de ensino com regras, valores e construção de conhecimento. Já a escola particular sempre teve certa independência em relação à sua estrutura, afinal pouco aderiu à aprovação automática, apesar de ter uma ética maleável quando a questão é a reprovação de certos alunos que não podem repetir o ano apesar de serem inaptos. Essa escola então aumentará sua carga horária, que já é, na maioria dos casos, superior na prática à das escolas públicas, e dará opção a seus alunos, que não têm maturidade para as coisas que a escola decide que ele não pode discutir, como por exemplo, política, mas é extremamente maduro para saber que disciplinas escolher no seu caminho rumo à universidade elitista.
Dessa forma, essa medida provisória torna a educação funcional, com vista a formar alunos aptos a ingressar na universidade para ter uma profissão de formação acadêmica e com status, enquanto é reservado aos “filhos das empregadinhas” o curso técnico profissionalizante, caso não desistam antes de concluí-lo.
Ao divulgar a imposição autoritária, eufemisticamente chamada de “medida provisória”, esse governo trapalhão informou que não haveria obrigatoriedade no ensino médio de disciplinas como Filosofia, Sociologia, Artes e Educação Física, em oposição à defesa dos antigos gregos de um corpo e uma mente sãos. Depois retrocedeu, disse ser um engano. Ao que tudo indica, percebeu certo descontentamento de mentes pensantes, uma minoria. Porém, o governo não quer vestir a roupa do fascismo, pois é preciso usar a máscara da democracia. Além disso, a medida permite que “profissionais com notório saber reconhecido pelos respectivos sistemas de ensino para ministrar conteúdos de áreas afins à sua formação” sejam aceitos como professores. Nenhuma novidade, já que cursos de licenciatura no Brasil são tão valorizados quanto treinamento de atendentes de telemarketing. O professor do ensino básico, aqui, não tem nenhum valor.
E, por fim, a internet foi invadida por zurros em defesa da reforma, inclusive da inutilidade e da força doutrinária de algumas disciplinas que não seriam obrigatórias. Além disso, entrevistas da imprensa mostraram a opinião de brasileiros a respeito. Mas o que não surpreende é que a opinião dos especialistas em educação não foi mostrada, pois ela não tem nenhuma importância em um país em que ator pornô tem mais poder de decidir os rumos da educação do que Paulo Freire, que ultimamente vem sendo xingado pelos fascistas grotescos que estão mais à vontade para mostrar a cara, já que se sentem representados no poder, e que chamam o filósofo e educador, infinitamente mais inteligente do que eles, respeitado inclusive fora do Brasil, de “comunista nojento”, entre outros tratamentos menos nobres.


Warley Matias de Souza.

27 de agosto de 2016

Cinema e crítica

2001: uma odisseia no espaço
(Origem e destino)

O filme é de 1968, um ano antes de o homem pisar na Lua, e pode ser considerado como futurista, ao pensar como estaria a viagem espacial no ano de 2001, um ano simbólico, pois marca a virada do século. Assim, o título une o futuro e o passado, ao fazer um diálogo com a Odisseia de Homero, um dos livros fundadores da literatura ocidental, em que Odisseu, ou Ulisses, faz sua viagem de retorno à sua casa em Ítaca, que dura dez anos. No filme de Stanley Kubrick, o personagem principal, Dave, também retorna à sua origem; mas no nível existencial, mais do que físico.

Prelúdio ou prólogo

O nada. O receptor vê apenas uma tela escura e ouve uma música de fundo. Do nada viemos. E, para alguns, é para lá que voltaremos. Depois, imagem do planeta Terra e do Sol. A luz se fez. A música de fundo traz um tambor, algo tribal, que remete à ancestralidade, mas tem também algo de grandioso, pois grandiosa é a odisseia que se inicia. O título do filme sugere o gênero épico. Onde estão os heróis? A heroína é a própria humanidade. O prólogo do filme inicia a viagem do ser humano pelo universo, viagem que começa no cosmos, mas que se concretiza no planeta Terra, é uma odisseia temporal mais do que espacial.

CAPÍTULO 1: The dawn of man (A aurora do homem)

O primata é retratado como vítima de um predador, portanto, um ser vulnerável, pois vulnerável é a humanidade. Surge um monólito misterioso. Dois destaques para o fato: a curiosidade e a adoração mística (a música de fundo sugere algo místico), marcas humanas. Aquilo que não entendemos, consideramos misterioso e, por isso, superior. Mas não é só um monólito? A curiosidade gera a ciência. A ignorância gera a crença. E ambas nos unem aos primatas.
O primata descobre, por acaso, que pode matar com um pedaço de osso: uma arma. O ser humano pode sobreviver sem matar? No início, a arma serve para caçar o alimento. Mas, em seguida, transforma-se também em instrumento para causar a morte dos iguais em espécie, mas rivais em bando. É a clássica luta pelo poder. O que diz muito da humanidade, que, aliás, pretenderá também matar Hal, a inteligência artificial, que, no futuro, pode ser uma ameaça à dominação humana. O ser humano mostra-se letal. Lida com o receio de morrer, e, talvez por isso, cause a morte alheia.
O primata lança o osso no espaço. Há um corte no tempo, o osso é associado a uma nave. Ambos são tecnologias, pois instrumentos da cultura usados para um fim. A civilização começa com a cultura, com o osso, que deixa de ser natural e se transforma em arma.
No espaço, um personagem faz uma videochamada para sua filha. A ficção científica lida com possibilidades e nos ensina que não há evolução tecnológica sem imaginação. Vemos personagens comendo comidas líquidas (com canudinho) ou pastosas. Ou seja, a evolução tecnológica vem para facilitar as ações humanas e nos afastar, portanto, das dificuldades do homem primata.
A valsa ao fundo, o Danúbio azul, de Johann Strauss (o filho), mais um produto da cultura humana, está em sintonia com os movimentos leves devido à gravidade. O homem flutua, cada vez mais distante do chão em que seus antepassados primitivos se arrastavam.
Há uma descoberta em Clavius, uma base lunar: algo que foi enterrado há quatro milhões de anos. É o misterioso monólito, que, segundo os pesquisadores, parece ter sido enterrado de propósito. Apesar da evolução científica, o mistério existe como uma ameaça ao próprio conhecimento. O monólito é o mistério, aquilo que não podemos explicar.
No espaço, tudo é limpo, claro, civilizado, em contraste com o primata sujo, inclusive de sangue.
Dezoito meses se passam desde que ocorre um fenômeno sonoro que agride os ouvidos daqueles que estão próximos ao monólito. Missão Júpiter: é-nos apresentado Hal, uma inteligência artificial, uma forma de consciência, mais evoluída do que a do homem primitivo e talvez do que a do homem do século XXI.
Fica claro que a odisseia é essa viagem no tempo, viagem evolutiva da humanidade, que vai em direção a uma inteligência artificial, esta que pode ser mais um elo da evolução, em que o humano se transforma em máquina. Assim, o filme propicia o questionamento sobre se a máquina teria sentimentos e emoções, o que a faria humana, obviamente. E é justamente a humanidade dessa máquina que se mostra um risco para a própria humanidade, pois o ser humano é letal.
Outro questionamento parece-nos inevitável: se a máquina serve ao homem, por que criar uma inteligência artificial superior à inteligência do próprio homem? Portanto, tudo indica que a inteligência artificial é o próximo passo na evolução humana. A máquina (a criatura) pode superar o homem (o criador), que possivelmente superou a Deus, em releitura ao romântico Frankenstein de Mary Shelley.
Conclui-se que Hal errou ao indicar o defeito de um dispositivo (algo inacreditável dada a perfeição desse computador). Porém, a falha da máquina intensifica a sua humanidade. Se for comprovada tal falha, ele será desativado. Mas ele lê os lábios dos dois tripulantes que queriam ocultar-lhe tal realidade e descobre isso. O drama universal então se mostra. Hal, como qualquer humano, precisa lutar pela sobrevivência. O desejo de viver e o receio de morrer une a inteligência artificial Hal aos mortais, aos humanos. Une, por fim, a máquina ao primata. Do que somos capazes de fazer para sobrevivermos? O desejo de continuar, que a princípio seria instintivo, está também na máquina, o que a humaniza completamente.

CAPÍTULO 2: Intermission (Intervalo)

A tela escurece, como se fosse o fim de um ato no teatro, o que caracteriza ainda mais o drama, a tragédia grega da Antiguidade é revisitada pelo homem do futuro. A música de fundo denota tensão, expectativa. Essa tela escura pode ser a própria consciência de Hal e também indicar o planejamento de seu próximo passo.
Hal começa a matar, assim como o homem primitivo; não mais com um osso, mas com tecnologia avançada. Depois que Hal mata os outros tripulantes, Dave resolve desligá-lo. Hal tenta conversar, impedir a própria morte, usar o discurso obtido pela evolução da linguagem humana. Diz sentir medo de morrer, um sentimento humano. Diz sentir perder a consciência, o que definiria a própria morte: “Penso, logo existo”, como disse Descartes.
Por fim, é revelado a Dave que, dezoito meses atrás, o primeiro vestígio de vida alienígena foi descoberto debaixo da Lua: o monólito. Eram os deuses astronautas? Questionamento feito com estardalhaço pelo escritor suíço Erich von Däniken, em seu best-seller de mesmo nome.

CAPÍTULO 3: Jupiter and beyond the infinite (Júpiter e além do infinito)

Durante viagem de Dave pelo espaço, imagens do universo, como pinturas abstratas, são mostradas. O que dá um toque de imaterialidade ao cosmos. Os olhos do cosmonauta são tocados por todas essas imagens, como uma espécie de experiência mística. De novo, a humanidade é posta entre a ciência e o místico, característica que talvez a defina.
O protagonista parece chegar a Júpiter, que, aliás, é o deus todo-poderoso da mitologia greco-romana. E então temos uma imagem surreal, que seria de agrado de Salvador Dalí. Sua cápsula (nave) está dentro de um quarto com decoração clássica, que sugere a limpeza, a civilidade e a eternidade.
O cosmonauta está velho dentro de um traje espacial vermelho. (Aliás, azul e vermelho são cores recorrentes no filme, talvez em associação à bandeira americana.) Ele se vê envelhecido no espelho. Depois se vê ainda mais velho sentado a uma mesa. É como se os tempos se tocassem, em diálogo talvez com a polêmica física quântica.
Um Dave decrépito está deitado em uma cama, tudo indica que é seu leito de morte. E dentro do quarto está o monólito para o qual o protagonista aponta ou no qual tenta tocar, diálogo com a imagem clássica de Michelangelo, pintor renascentista, em que o homem tenta tocar o dedo de um deus ou do passado, representado no filme pelo monólito, o deus é um mistério. O monólito é o sagrado, o mistério, aquilo que a razão humana não consegue atingir.
Dave, por fim, transforma-se em feto, ou seja, volta à origem, numa referência à morte. Então, temos a imagem de um planeta e do feto em ovo, equiparadas, o que sugere que cada um de nós é um mundo e que, por mais que viajemos pelo cosmos, a verdade estará essencialmente em nós. Portanto, a odisseia de Stanley Kubrick configura-se na busca da verdade individual, da essência humana, e sugere que o universo infinito e inexplorado está, na verdade, dentro de cada um de nós.

Warley Matias de Souza.

6 de junho de 2016

Caça às bruxas no século XXI (perseguição ideológica a professores e professoras no Brasil)

Como resultado da polarização do país a partir das últimas eleições para presidente em 2014, o Brasil, em 2016, começa a empreender uma caça às bruxas àqueles que discordam do pensamento conservador de grande parte da elite brasileira. Isso não é novidade, a mídia já mostrou médicos que negaram atendimento a supostos “petistas”, bem como os casos de agressão verbal e física sofridas por artistas conhecidos e perpetradas por conservadores integrantes dessa elite, que identificaram esses artistas como “petistas”.
Isso agora assume uma dimensão bem mais preocupante e nada discutida pela mídia. Professores e professoras estão sendo censurados em algumas escolas particulares de ensino básico. São proibidos de manifestar seus pensamentos políticos. Como as escolas particulares são financiadas pelos pais dos alunos, que são, em maioria, pertencentes à classe conservadora da elite brasileira, tornam-se frequentes as reclamações junto aos dirigentes das escolas, que se sentem obrigados a “advertir” seus professores e suas professoras quanto ao fato, uma vez que as escolas particulares no Brasil estão cada vez mais assumindo o caráter exclusivo de instituição comercial em prejuízo de seu caráter primordial de instituição de ensino.
Os donos dessas escolas, normalmente despreparados, não conseguem se impor e defender o verdadeiro papel da escola: o debate, seja ele político ou não. Parece-me claro que os pais preocupados com a suposta “doutrinação política” assim estão porque a maioria dos professores e professoras das áreas de humanas e artes tem ideias consideradas por esses pais como “petistas”, já que fala de (e defende) minorias, critica a desigualdade social e o abuso de poder, além de criticar a ignorância que alimenta as religiões. As escolas, reféns desses pais que as sustentam, caminham então para a defesa de uma educação alienada, acrítica, formadora de autômatos e espiões, pois os alunos tornam-se os vigias e delatores dos professores e das professoras que expressam posições políticas, isto é, têm total poder sobre os docentes.
No entanto, disciplinas como História, Filosofia, Sociologia, Literatura, Língua Portuguesa, para dar alguns exemplos, trabalham com ideias, com questionamentos, e nunca poderão abster-se da discussão a não ser que sejam extintas, o que me parece ser o próximo passo. Muito em breve, essas disciplinas só existirão no papel, serão algumas das inúmeras ficções deste país. Provavelmente serão ministradas por professores e professoras de Matemática, Ensino Religioso ou Educação Física, que, na realidade brasileira, em sua maioria, têm pouca ou nenhuma formação crítica.
Nas escolas públicas do ensino básico, não parece haver problema, já que essa educação pública está falida, como sabemos, e já cumpre o seu papel de manter as minorias, incluem-se nesse rótulo as classes baixas, no seu devido lugar, ou seja, desempoderadas, não só financeiramente mas também intelectual e ideologicamente.
Parece-me claro que se os professores e as professoras das escolas particulares do ensino básico tivessem todos uma mesma ideologia conservadora e “doutrinassem” seus alunos para o conservadorismo, não haveria reclamações. Esses professores e essas professoras supostamente “doutrinadores” estão, portanto, ameaçados de serem demitidos. E, para completar, esses professores e essas professoras estão desamparados, pois os sindicatos não tomam atitudes efetivas a respeito e muito menos o Estado. Além disso, nem mesmo podem contar com o apoio da classe, pois professores e professoras opinativos estão sendo hostilizados pelos próprios colegas conservadores.
A perseguição política está portanto declarada em algumas escolas particulares do ensino básico no Brasil, que deveriam ser o maior exemplo de democracia, mas que estão se mostrando completamente autoritárias, não só no que se refere à disciplina em relação aos alunos, mas também na censura aos professores e professoras.
Tudo isso é um exemplo clássico de opressão, já que aqueles que detêm o poder financeiro, e quase nunca o intelectual, reprimem o livre pensamento por meio da ameaça de demissão de professores e professoras, ou seja, de diminuição do seu poder de compra ou mesmo de ameaça à sua sobrevivência. Tais profissionais então se veem coagidos a não pensar, a colocarem a mordaça e aceitarem a opressão. Os que não o fizerem pagarão por isso, pois as fogueiras nunca param de queimar; em alguns momentos, ficam apenas adormecidas.


Warley Matias de Souza.

29 de fevereiro de 2016

Vigiar e punir: a castração das bichas

As bichas estão mais propensas à alienação, pois, por não terem a opção do “armário”, são os alvos preferidos dos homofóbicos. Assim, a evasão escolar das bichas é muito grande, já que não suportam a perseguição ocorrida nas escolas, que deveria ser um ambiente de acolhimento e diversidade; mas que, na prática, é de exclusão. Portanto, a evasão escolar das bichas é causada por um mecanismo complexo e histórico que visa negar poder a essas pessoas.
Deparei-me, recentemente, com um pequeno documentário, de Marlon Parente, chamado Bichas, que traz depoimentos de homens que se assumem bichas. A partir dos depoimentos, percebi que as bichas podem estar além da cultura gay quando são politizadas e têm a consciência do seu poder transformador na sociedade. As bichas incomodam porque, naturalmente, não se encaixam nos padrões da normalidade. Na mesma perspectiva da palavra “queer”, que, nos Estados Unidos, é um xingamento que pode ser convertido em arma política, as bichas brasileiras podem usar o processo de exclusão a seu favor, ao transformarem o xingamento em elogio.
 Coincidentemente, li recentemente o Vigiar e punir, livro de Michel Foucault. E foi inevitável fazer a relação com o documentário em questão, já que as bichas são incontestavelmente vítimas desse controle social que busca a normalização e pune todos aqueles que não se enquadram nos padrões. Então, quando um homofóbico agride uma bicha, verbal, física ou moralmente, ele nada mais faz do que representar uma sociedade homofóbica que busca eliminar o “anormal”.
Diante do controle maciço que toda a sociedade sofre desde sempre, alguns de seus integrantes podem ocultar-se ou recorrer à hipocrisia. Não só, mas principalmente, no meio gay, são usadas as expressões “entrar no armário” ou “sair do armário”, que podem também ser usadas como conceitos acadêmicos para aqueles que estudam o homoerotismo e questões de identidade e gênero. Porém, as bichas não têm a opção de se ocultarem, pois é extravagante ainda, em nossa sociedade, um corpo masculino transitar pelo universo feminino de forma natural, intensa e provocadora, uma vez que as bichas não se preocupam em disfarçar o seu lado masculino. Assim, a tentativa de alguns programas de humor e afins de transformar as bichas em algo caricato e não natural é também uma forma de não levá-las a sério.
As bichas politizadas podem ser ainda mais ameaçadoras do que as simples bichas que vivem o seu árduo dia a dia em tons de cinza e cor-de-rosa. No documentário, vi depoentes que usavam termos políticos como “empoderamento” e que estavam, a maioria, senão todos, conscientes de que ser bicha é também um ato político. No entanto, parece-me que a maioria das bichas brasileiras não tem essa consciência, e muitas, inclusive, acreditam em sua inferioridade, já que a sociedade todo o tempo as faz sentirem-se assim.
A alienação ainda está presente, acredito, na vida da maioria das bichas, que, no meio gay, onde também são rejeitadas por gays ignorantes e superficiais, acabam, apesar de tudo, sentindo-se um pouco mais acolhidas, mas que, no dia a dia da vida social, veem-se obrigadas a recorrer a artifícios de sobrevivência, que vão desde a passividade completa a bicha boazinha e prestativa até a agressividade a bicha mal-humorada e grosseira, que achou nessa atitude a única forma de se defender da violência. E, para fugir do sofrimento, como todos os seres humanos (Pasmem os homofóbicos: bichas são seres humanos!), as bichas alienadas recorrem à fuga, que, nesse caso, é-lhes oferecida pela cultura gay: sexo, diversão e consumo.
O documentário Bichas deverá ser visto por muitos homossexuais; mas por pouquíssimos heterossexuais, provavelmente. No entanto, são estes que deveriam de fato assistir a ele. Porém, todos vivemos, na contemporaneidade, em guetos de todas as formas. Ninguém se interessa em conhecer o universo diferente do seu, ou seja, de novo estou falando de alienação. Todos conhecem o seu espaço e não ousam ultrapassar os limites do mesmo. Mas talvez o documentário chegue a muitas bichas, que, a partir dele, poderão ter consciência de sua força. No entanto, sem educação e, principalmente, sem leitura, essas bichas nunca poderão se impor, pois resistência é mais do que dizer palavrão e partir para a agressão física, é ter consciência real de sua força, saber-se importante e estar de cabeça erguida para, desafiadoras, olhar nos olhos, falar de igual para igual, mostrar que é inteligente e crítica.
Contudo, tendo em vista o processo de vigilância e de punição de que nos fala Foucault, negar às bichas o direito efetivo à educação e forçá-las a consumir uma cultura gay alienante é a melhor forma de mantê-las “desempoderadas”, sem força política, sem cidadania de fato. E a vigilância, como sabemos, começa desde cedo, pois a repressão é feita já na infância e segue incessante no decorrer de toda a trajetória das bichas vítimas, que são identificadas, agredidas, tantas vezes na escola, e forçadas a sentirem-se feias e anormais. Dessa forma, vigiadas e punidas constantemente, as bichas são impedidas de serem cidadãs plenas e não passarão nunca de vítimas, jamais experimentarão o protagonismo em suas existências.
O documentário Bichas ampliou um pouco mais meus horizontes, pois sempre pensei mais no homoerotismo em si e não nas identidades, além de sempre criticar a cultura gay. Porém, os depoentes lembraram-me que as bichas existem e que, por mais que algumas sejam espalhafatosas, ainda são vítimas da invisibilidade, pois ser invisível é não ser ouvido, é não ser levado a sério. Portanto, as bichas são, sem dúvida, as peças mais importantes na luta política do que se chama hoje movimento LGBTTT (Lésbicas, Gays, Travestis, Transexuais e Transgêneros), já que são os principais alvos de agressão e incompreensão por parte da sociedade e são os elementos mais transgressores desse movimento, até mais do que os(as) travestis, que, de certa forma, são ainda adequados(as), já que assumem o feminino de forma mais harmoniosa.
As bichas, mesmo as alienadas, são naturalmente transgressoras, apesar de muitas nem terem consciência disso. Os participantes do documentário manifestam essa consciência. Nesse sentido, toda a sociedade deveria ver as bichas como grandes heroínas, pois elas atacam, naturalmente, os mecanismos de repressão e controle da liberdade individual. Mas todas as pessoas estão acostumadas a serem vigiadas e, arrisco a dizer, até gostam disso, pois perderam a noção, faz tempo, do que é liberdade. E como a liberdade das bichas é natural e impossível de ser contida, depois de todas as agressões possíveis, a sociedade lhes reserva a agressão final, a morte, única forma de contê-las. E aquelas que deveriam ser nossas heroínas se tornam as vítimas, enquanto os homofóbicos são vistos como heróis por nossa sociedade machista, que não apoia explicitamente a homofobia e os crimes de ódio, mas faz vista grossa para eles. Afinal, para esta sociedade homofóbica, as bichas buscam a punição, já que não se enquadram nos padrões da tal normalidade.
Bichas ampliou meus horizontes. Continuarei pensando e talvez até dizendo besteiras a respeito do vasto universo LGBTTT. O tempo será meu juiz. E o tempo também, espero, reconhecerá que nunca hesitei em falar sobre o assunto e fomentar o debate, pois só assim é que podemos ampliar nosso conhecimento do mundo. Ainda não consigo ver a beleza da cultura gay, mas provavelmente ela existe. Portanto, continuarei, por muito tempo, criticando a futilidade e a frieza gays. Mas as bichas, depois desse documentário, serão vistas por mim de uma forma um pouco diferente. O incômodo que elas causam já foi mencionado por mim em algum outro momento; mas eu não havia percebido ainda o quanto a vida bicha pode ser rica para o debate político, apesar de minhas leituras sobre a teoria queer, talvez nubladas por uma visão alienante do homoerotismo. Portanto, o documentário deu-me a visibilidade de uma coisa que eu não desconhecia; mas que, de certa forma, ignorava.
Provavelmente Marlon Parente e as bichas que participam do seu documentário nunca lerão este artigo, já que a visibilidade de textos imagéticos é maior do que a de textos verbais; mas é importante lhes dizer que fizeram um importante trabalho. Espero que o mesmo estimule outros e outros, para que as bichas do futuro possam viver um pouco mais dignamente no mundo real e mais distantes do mundo de Oz, uma vez que este é intelectualmente devastador. E que possam, principalmente, ter acesso à boa educação e à arte crítica. Tomara que, no futuro, o mundo seja repleto de bichas intelectualizadas, politizadas e “empoderadas”.


Warley Matias de Souza.

29 de janeiro de 2016

Estado cristão

No Brasil, existem a legalidade e a prática. Qualquer brasileiro sabe que, aqui, a prática sobressai a qualquer legalidade. Muitas leis não pegam, e o poder público faz vista grossa para isso. Contratos são descumpridos, porque o que está escrito no papel, aqui, muitas vezes não vale nada. E a Constituição diz que o Estado é laico. Mas não é. Na prática, o Estado brasileiro é cristão, pois quem manda (e oprime), neste país, é a fé religiosa, cristã em maioria.
Deus está em todos os lugares, de fato onipresente. As pessoas invocam-no para tudo. Para se ter uma ideia, a cura de um câncer, no Brasil, nada tem a ver com a competência de dedicados médicos, mas deve-se sempre a Deus. Passar em concurso público ou vestibular nada tem a ver com esforço próprio e de professores, nada tem a ver com o conhecimento, pois é tudo graças a Deus. Diante das injustiças, todos recorrem a Deus, pouquíssimos ao poder judiciário. Assim, as igrejas ou espaços religiosos estão sempre cheios.
O mais alienante símbolo nacional, o futebol, está repleto de jogadores e torcedores que, na hora da disputa, oram ou se persignam crentes de que Deus tem tempo a perder com tamanha futilidade. Nos campos de várzea, não se canta o hino nacional, reza-se o pai-nosso. Nos jogos oficiais do futebol brasileiro, o hino é obrigação; mas todos gostariam também de uma respeitosa oração. Se pudessem trocar o hino pela oração, não tenho sombra de dúvida de que o hino perderia. Em um plebiscito popular, a vitória da oração seria de quase 100%.
Os problemas dos habitantes deste país não são resolvidos com ações efetivas, mas dependem de se Deus quiser... Todas as infelicidades, bem como a depressão e o suicídio, são causadas pela falta de Deus. E os cristãos que dizem isso o fazem de forma a culpar o desgraçado pela própria desgraça, já que não teve fé. Em despedidas, vai com Deus. Em agradecimentos, que Deus te pague. E se precisar de consolo: Deus sabe o que faz, tenha fé em Deus, que Deus te dê força etc. Até psicólogos entram na onda divina. Muitos deles cobram uma consulta para aconselhar seus pacientes a buscar uma religião. E, diante de tudo isso, sinto-me como se vivesse na Europa durante a Idade Média.
Nas escolas, quando o professor reza um pai-nosso antes de começar a aula, não há reclamações de pais, diretores, coordenadores ou proprietários (no caso de escolas particulares). Mas se o professor é ateu, alguém inevitavelmente vai considerá-lo uma má influência. Só o fato de ser ateu faz de alguém um alvo para opressão, discriminação e injustiça. Já fui discriminado pelo simples fato de não ter religião, não crer em Deus e assumir isso quando perguntado por algum aluno em sala de aula. Já fui obrigado a ouvir colega de trabalho dizer que quem não acredita em Deus é porque lhe falta alguma coisa, que não crer em Deus já é indício de que o descrente tem algum problema, ou seja, a descrença é um problema com sérias consequências. Já recebi aviso de escola para tomar cuidado com o que falo para meus alunos em sala de aula. Por isso, conheço o tom educado de ameaça e desrespeito que não disfarça a discriminação.
Não faço doutrinação, pois não tenho nenhum interesse em convencer ninguém a ser ateu. Encontrei a minha verdade e, ao contrário dos religiosos, não fico o tempo todo a enfiando goela abaixo dos outros. Mas só o fato de não ter vergonha de me dizer ateu já é considerado uma ameaça para esses que se dizem filhos de Deus. Os cristãos, principalmente, fazem doutrinação o tempo inteiro, e nenhum deles é advertido por isso em escolas ou qualquer estabelecimento. Aliás, os seres mais arrogantes que já conheci são religiosos e, principalmente, cristãos. Não admitem a oposição, são intolerantes, tratam todos como se todos fossem cristãos, uma vez que, para eles, a diferença é uma espécie de anomalia. Não tenho nada contra a arrogância, eu mesmo a tenho, mas o cristianismo prega a humildade, e a arrogância cristã deixa evidente que há uma doença se espalhando por aí.
Então, não me venham dizer que o país é laico, pois não é. E também não tentem me convencer de que aqui existe tolerância religiosa, pois isso é uma grande mentira. O religioso brasileiro tem uma violência latente dentro de si. Por enquanto, ela é manifestada por duros olhares, por discursos discriminatórios e prepotentes, pela opressão dissimulada de advertência. Portanto, parece-me evidente que a violência física não tardará muito a mostrar sua face odienta. Assim como o não mais latente ódio de classe, o ódio religioso logo eclodirá. Então, a máscara do sincretismo religioso cairá por terra, a hipocrisia não mais se sustentará, pois a intolerância religiosa e cristã cresce mais e mais, intensificada pela ignorância sempre alimentada pelo egoísmo e pela fé cega.


Warley Matias de Souza.

29 de dezembro de 2015

A cloaca

No supermercado, compro cânceres para comer, depois de sofrer discriminação no trabalho, por ser ateu. O nó da injustiça continua entalado na garganta. Apesar do refrigerante gelado, não quer descer. Vejo, com tristeza, a agonia do estado laico, enquanto jovens nas ruas olham, olham, querem foder, menos comigo, mas com todo o mundo, malditos hormônios, é que não sou deste mundo. As mulheres falam, e os homens se calam. As mesmas conversas, os mesmos gestos, as mesmas atitudes de homens e mulheres, polaridade arcaica. Família, trabalho, religião e futebol. Observo as mil variações da mesma coisa. Enquanto isso, a corrupção nas escolas continua, e o tédio me consome juntamente com a descrença nessas pessoas presas para sempre na animalidade e na superstição. Então, finalmente percebo que o tédio embrutece, insensibiliza, pois não acredito mais na humanidade, aberração da natureza. E se quero falar com as profundezas oceânicas, todos almejam nada além do pântano raso. E nas ruas apinhadas, há nos olhares cúpidos o brilho do desejo consumista de comprar e comprar e comprar. Loja, grande deusa pós-moderna, antecessora da grande, suprema e definitiva cloaca, que eliminará tudo, inclusive as almas de quem ainda as tiver. Perante a grande mãe, um vômito amargo sai de minha boca, choro sangue, sou cristo martirizado pela ignorância e humilhado pela fé dos insanos que ainda não perceberam que a condenação ao inferno está em prática, o paraíso é uma mentira, alimentada pelo fogo da demoníaca ilusão. Ah, tenho fome que nunca será saciada. E, cada vez mais, busco o isolamento. Porque isto tudo é demais para mim. Ou melhor, é muito pouco.


Warley Matias de Souza.

10 de dezembro de 2015

Tempo ao tempo

Homenagem à turma do 3o ano de 2015 do Colégio Caetano.

Esse tempo acabou, tornou-se lembrança, material reciclado na memória. Os professores não estão mais ali, os colegas também não. A sala ficará para sempre vazia. Acabou. Se fechar os olhos, poderá acessar suas memórias, cada vez mais nebulosas, e preencher a sala e os corredores daquela tão longínqua escola. Mas depois tudo de novo se dissipará. Acabou. Aquelas vozes se foram, sussurros apenas agora. Então, diante da inevitabilidade do fim, terá de aceitar que, enfim, acabou. E, para se consolar, terá de descobrir o que ficou.
O que resta é apenas o tempo, soberano, em sua dominação avassaladora. Somos escravos dele, onipresença misteriosa materializada pelo relógio, a verdadeira máquina do tempo. Uma máquina, no entanto, que não o produz, mas o impõe. Pois ele já existe antes e depois de todos nós, seus servos, meros escravos do tempo.
Portanto, é tempo de pensar... no tempo. No tempo de aprender, em que a vida é um mistério. No tempo da melancolia, em que a árvore cresce e cria raízes. No tempo de esquecer, em que o desapego se torna necessário. No tempo de sonhar, em que ultrapassamos a barreira das possibilidades. No tempo de realizar, em que efetivamos o nosso pensamento.
Afinal, não temos tempo a perder, pois o tempo já foi perdido. Então abraçamos a memória, fazemos história, construímos o nosso tempo. E mesmo que queiramos correr atrás do tempo, deslizar nas dobras do tempo, acabamos por perceber que nos falta o tempo. Então talvez encontremos um buraco de minhoca para voltar no tempo, pular no tempo, como se pula a corda, mergulhar na relatividade do tempo.
Mas sempre há o encontro de dois tempos: o velho e o novo. É preciso então passar o bastão, fechar os olhos e sentir o tempo. O tempo da batida do verso. O tempo da narrativa. O tempo da narração. O contratempo. Um tempo que começa. Um tempo que termina. Um novo tempo. Naquele tempo, no meu tempo, tudo era... era uma vez. Correr contra o tempo! E a favor? E entender, por fim, que tudo é uma questão de tempo. E quando seu tempo passar, talvez se perca no tempo bom das próximas gerações. E se tiver tempo a perder, poderá usufruir do privilégio.
Tantos tempos! O tempo da dor. O tempo do prazer. O tempo de guerra. O tempo de paz. O tempo do meu avô. O tempo do Onça. No tempo da Carochinha, era uma vez...  E o tempo que durou esta leitura. Tempo de lembrar. Construção da memória. Areias desérticas do tempo, monótonas, eternas, pacientes, repetitivas como o tempo deste texto. Tudo a seu tempo. E no meu também.
Esse labirinto chamado tempo exige a nossa inteligência, a nossa sagacidade, a nossa sensibilidade. Perder-se no meio do caminho é regra. Encontrar-se no final é uma possibilidade. Na trajetória, o tempo do tédio é quebrado pelo tempo da emoção. Mas o tempo é matemático, exige a razão. Bem-aventurado é aquele que marca o tempo do tédio com o tempo iluminado da consciência.
Acabou. Não é possível voltar no tempo. Aquela mão que segurou a sua, afastou-se tímida, deixou a sua mão livre para construir o seu próprio tempo. Porque acabou. Mas um novo tempo começa agora. Perdê-lo ou aproveitá-lo é sua escolha. Porém, lembre-se de que, inevitavelmente, tudo acaba, como estas palavras, que logo se perderão no tempo.
Então, respire fundo e dê tempo ao tempo.


Warley Matias de Souza.