27 de agosto de 2016

Cinema e crítica

2001: uma odisseia no espaço
(Origem e destino)

O filme é de 1968, um ano antes de o homem pisar na Lua, e pode ser considerado como futurista, ao pensar como estaria a viagem espacial no ano de 2001, um ano simbólico, pois marca a virada do século. Assim, o título une o futuro e o passado, ao fazer um diálogo com a Odisseia de Homero, um dos livros fundadores da literatura ocidental, em que Odisseu, ou Ulisses, faz sua viagem de retorno à sua casa em Ítaca, que dura dez anos. No filme de Stanley Kubrick, o personagem principal, Dave, também retorna à sua origem; mas no nível existencial, mais do que físico.

Prelúdio ou prólogo

O nada. O receptor vê apenas uma tela escura e ouve uma música de fundo. Do nada viemos. E, para alguns, é para lá que voltaremos. Depois, imagem do planeta Terra e do Sol. A luz se fez. A música de fundo traz um tambor, algo tribal, que remete à ancestralidade, mas tem também algo de grandioso, pois grandiosa é a odisseia que se inicia. O título do filme sugere o gênero épico. Onde estão os heróis? A heroína é a própria humanidade. O prólogo do filme inicia a viagem do ser humano pelo universo, viagem que começa no cosmos, mas que se concretiza no planeta Terra, é uma odisseia temporal mais do que espacial.

CAPÍTULO 1: The dawn of man (A aurora do homem)

O primata é retratado como vítima de um predador, portanto, um ser vulnerável, pois vulnerável é a humanidade. Surge um monólito misterioso. Dois destaques para o fato: a curiosidade e a adoração mística (a música de fundo sugere algo místico), marcas humanas. Aquilo que não entendemos, consideramos misterioso e, por isso, superior. Mas não é só um monólito? A curiosidade gera a ciência. A ignorância gera a crença. E ambas nos unem aos primatas.
O primata descobre, por acaso, que pode matar com um pedaço de osso: uma arma. O ser humano pode sobreviver sem matar? No início, a arma serve para caçar o alimento. Mas, em seguida, transforma-se também em instrumento para causar a morte dos iguais em espécie, mas rivais em bando. É a clássica luta pelo poder. O que diz muito da humanidade, que, aliás, pretenderá também matar Hal, a inteligência artificial, que, no futuro, pode ser uma ameaça à dominação humana. O ser humano mostra-se letal. Lida com o receio de morrer, e, talvez por isso, cause a morte alheia.
O primata lança o osso no espaço. Há um corte no tempo, o osso é associado a uma nave. Ambos são tecnologias, pois instrumentos da cultura usados para um fim. A civilização começa com a cultura, com o osso, que deixa de ser natural e se transforma em arma.
No espaço, um personagem faz uma videochamada para sua filha. A ficção científica lida com possibilidades e nos ensina que não há evolução tecnológica sem imaginação. Vemos personagens comendo comidas líquidas (com canudinho) ou pastosas. Ou seja, a evolução tecnológica vem para facilitar as ações humanas e nos afastar, portanto, das dificuldades do homem primata.
A valsa ao fundo, o Danúbio azul, de Johann Strauss (o filho), mais um produto da cultura humana, está em sintonia com os movimentos leves devido à gravidade. O homem flutua, cada vez mais distante do chão em que seus antepassados primitivos se arrastavam.
Há uma descoberta em Clavius, uma base lunar: algo que foi enterrado há quatro milhões de anos. É o misterioso monólito, que, segundo os pesquisadores, parece ter sido enterrado de propósito. Apesar da evolução científica, o mistério existe como uma ameaça ao próprio conhecimento. O monólito é o mistério, aquilo que não podemos explicar.
No espaço, tudo é limpo, claro, civilizado, em contraste com o primata sujo, inclusive de sangue.
Dezoito meses se passam desde que ocorre um fenômeno sonoro que agride os ouvidos daqueles que estão próximos ao monólito. Missão Júpiter: é-nos apresentado Hal, uma inteligência artificial, uma forma de consciência, mais evoluída do que a do homem primitivo e talvez do que a do homem do século XXI.
Fica claro que a odisseia é essa viagem no tempo, viagem evolutiva da humanidade, que vai em direção a uma inteligência artificial, esta que pode ser mais um elo da evolução, em que o humano se transforma em máquina. Assim, o filme propicia o questionamento sobre se a máquina teria sentimentos e emoções, o que a faria humana, obviamente. E é justamente a humanidade dessa máquina que se mostra um risco para a própria humanidade, pois o ser humano é letal.
Outro questionamento parece-nos inevitável: se a máquina serve ao homem, por que criar uma inteligência artificial superior à inteligência do próprio homem? Portanto, tudo indica que a inteligência artificial é o próximo passo na evolução humana. A máquina (a criatura) pode superar o homem (o criador), que possivelmente superou a Deus, em releitura ao romântico Frankenstein de Mary Shelley.
Conclui-se que Hal errou ao indicar o defeito de um dispositivo (algo inacreditável dada a perfeição desse computador). Porém, a falha da máquina intensifica a sua humanidade. Se for comprovada tal falha, ele será desativado. Mas ele lê os lábios dos dois tripulantes que queriam ocultar-lhe tal realidade e descobre isso. O drama universal então se mostra. Hal, como qualquer humano, precisa lutar pela sobrevivência. O desejo de viver e o receio de morrer une a inteligência artificial Hal aos mortais, aos humanos. Une, por fim, a máquina ao primata. Do que somos capazes de fazer para sobrevivermos? O desejo de continuar, que a princípio seria instintivo, está também na máquina, o que a humaniza completamente.

CAPÍTULO 2: Intermission (Intervalo)

A tela escurece, como se fosse o fim de um ato no teatro, o que caracteriza ainda mais o drama, a tragédia grega da Antiguidade é revisitada pelo homem do futuro. A música de fundo denota tensão, expectativa. Essa tela escura pode ser a própria consciência de Hal e também indicar o planejamento de seu próximo passo.
Hal começa a matar, assim como o homem primitivo; não mais com um osso, mas com tecnologia avançada. Depois que Hal mata os outros tripulantes, Dave resolve desligá-lo. Hal tenta conversar, impedir a própria morte, usar o discurso obtido pela evolução da linguagem humana. Diz sentir medo de morrer, um sentimento humano. Diz sentir perder a consciência, o que definiria a própria morte: “Penso, logo existo”, como disse Descartes.
Por fim, é revelado a Dave que, dezoito meses atrás, o primeiro vestígio de vida alienígena foi descoberto debaixo da Lua: o monólito. Eram os deuses astronautas? Questionamento feito com estardalhaço pelo escritor suíço Erich von Däniken, em seu best-seller de mesmo nome.

CAPÍTULO 3: Jupiter and beyond the infinite (Júpiter e além do infinito)

Durante viagem de Dave pelo espaço, imagens do universo, como pinturas abstratas, são mostradas. O que dá um toque de imaterialidade ao cosmos. Os olhos do cosmonauta são tocados por todas essas imagens, como uma espécie de experiência mística. De novo, a humanidade é posta entre a ciência e o místico, característica que talvez a defina.
O protagonista parece chegar a Júpiter, que, aliás, é o deus todo-poderoso da mitologia greco-romana. E então temos uma imagem surreal, que seria de agrado de Salvador Dalí. Sua cápsula (nave) está dentro de um quarto com decoração clássica, que sugere a limpeza, a civilidade e a eternidade.
O cosmonauta está velho dentro de um traje espacial vermelho. (Aliás, azul e vermelho são cores recorrentes no filme, talvez em associação à bandeira americana.) Ele se vê envelhecido no espelho. Depois se vê ainda mais velho sentado a uma mesa. É como se os tempos se tocassem, em diálogo talvez com a polêmica física quântica.
Um Dave decrépito está deitado em uma cama, tudo indica que é seu leito de morte. E dentro do quarto está o monólito para o qual o protagonista aponta ou no qual tenta tocar, diálogo com a imagem clássica de Michelangelo, pintor renascentista, em que o homem tenta tocar o dedo de um deus ou do passado, representado no filme pelo monólito, o deus é um mistério. O monólito é o sagrado, o mistério, aquilo que a razão humana não consegue atingir.
Dave, por fim, transforma-se em feto, ou seja, volta à origem, numa referência à morte. Então, temos a imagem de um planeta e do feto em ovo, equiparadas, o que sugere que cada um de nós é um mundo e que, por mais que viajemos pelo cosmos, a verdade estará essencialmente em nós. Portanto, a odisseia de Stanley Kubrick configura-se na busca da verdade individual, da essência humana, e sugere que o universo infinito e inexplorado está, na verdade, dentro de cada um de nós.

Warley Matias de Souza.

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