5 de novembro de 2016

Doutrinação fascista

Atualmente, é comum os professores de algumas escolas particulares do Brasil receberem avisos da direção que lhes recomendam não se posicionar partidariamente. Além disso, a defesa de minorias, nessas escolas, pode gerar problema para qualquer professor. E como a escola particular visa ao lucro mais do que à educação, defender a igualdade e a diversidade pode custar o emprego do professor. Claro que a demissão será “maquiada”, uma desculpa será inventada; mas o professor saberá, em seu íntimo e memória, que ter opinião política no Brasil é perigoso.
Ser um professor ateu e manifestar isso também pode gerar a punição máxima, a demissão, pois as fogueiras punitivas são um sonho não muito distante para os fascistas brasileiros, que comandam a nossa educação de forma alguma laica. A lei proíbe a discriminação em ambiente de trabalho. Se o dono de uma escola demitir o professor porque este é ateu, homossexual, negro etc., sua escola pode ser fechada, já que a indenização pode levá-lo à falência. Uma grande mentira essa. O professor precisará comprovar que foi discriminado, e nenhum funcionário da escola, nem os colegas de profissão, vai depor a seu favor, pois é escravo do salário de fome que lhe é pago.
Recentemente, o governo lançou uma medida provisória para reformar o ensino médio. Atitude de governo fascista, autoritário. Há quem diga mesmo que medidas provisórias são inconstitucionais. Mas não entrarei nesse ponto, já que meu conhecimento do labirinto legal não permite. Esse governo, erigido sobre a deslealdade, está comprometido, e desesperado, em mostrar serviço, por isso toma atitudes “para inglês ver”. Afinal, com a proposta, a escola pública continuará como é hoje, isto é, um lixo completo; apenas consumirá mais dinheiro público para manter alunos por mais tempo na escola. Estes continuarão a não aprender nada e a viver no seu limbo de ignorância, de forma a serem preparados para a escravidão que lhes é reservada. Sem formação adequada, servirão a contento as elites que governam este país, que é democracia no papel, mas oligarquia na prática; aliás, é também laico no papel, mas teocrata na prática.
Nas escolas particulares, quem manda é o cliente, e hoje a clientela mostra sua face fascista, depois de alguns anos oculta nas sombras, em que pensamos que o país estava se transformando. Os fascistas no Brasil vão à missa aos domingos ou a cultos protestantes, governam o país com a Bíblia em uma mão e o chicote na outra. A educação brasileira hoje é um prédio, com elevador de serviço reservado às “empregadinhas” para que elas não incomodem com sua cor e sua pobreza.
A escola pública foi assassinada quando aderiu à aprovação automática, aceitou ser depósito de “enjeitados” e desistiu de ser instituição de ensino com regras, valores e construção de conhecimento. Já a escola particular sempre teve certa independência em relação à sua estrutura, afinal pouco aderiu à aprovação automática, apesar de ter uma ética maleável quando a questão é a reprovação de certos alunos que não podem repetir o ano apesar de serem inaptos. Essa escola então aumentará sua carga horária, que já é, na maioria dos casos, superior na prática à das escolas públicas, e dará opção a seus alunos, que não têm maturidade para as coisas que a escola decide que ele não pode discutir, como por exemplo, política, mas é extremamente maduro para saber que disciplinas escolher no seu caminho rumo à universidade elitista.
Dessa forma, essa medida provisória torna a educação funcional, com vista a formar alunos aptos a ingressar na universidade para ter uma profissão de formação acadêmica e com status, enquanto é reservado aos “filhos das empregadinhas” o curso técnico profissionalizante, caso não desistam antes de concluí-lo.
Ao divulgar a imposição autoritária, eufemisticamente chamada de “medida provisória”, esse governo trapalhão informou que não haveria obrigatoriedade no ensino médio de disciplinas como Filosofia, Sociologia, Artes e Educação Física, em oposição à defesa dos antigos gregos de um corpo e uma mente sãos. Depois retrocedeu, disse ser um engano. Ao que tudo indica, percebeu certo descontentamento de mentes pensantes, uma minoria. Porém, o governo não quer vestir a roupa do fascismo, pois é preciso usar a máscara da democracia. Além disso, a medida permite que “profissionais com notório saber reconhecido pelos respectivos sistemas de ensino para ministrar conteúdos de áreas afins à sua formação” sejam aceitos como professores. Nenhuma novidade, já que cursos de licenciatura no Brasil são tão valorizados quanto treinamento de atendentes de telemarketing. O professor do ensino básico, aqui, não tem nenhum valor.
E, por fim, a internet foi invadida por zurros em defesa da reforma, inclusive da inutilidade e da força doutrinária de algumas disciplinas que não seriam obrigatórias. Além disso, entrevistas da imprensa mostraram a opinião de brasileiros a respeito. Mas o que não surpreende é que a opinião dos especialistas em educação não foi mostrada, pois ela não tem nenhuma importância em um país em que ator pornô tem mais poder de decidir os rumos da educação do que Paulo Freire, que ultimamente vem sendo xingado pelos fascistas grotescos que estão mais à vontade para mostrar a cara, já que se sentem representados no poder, e que chamam o filósofo e educador, infinitamente mais inteligente do que eles, respeitado inclusive fora do Brasil, de “comunista nojento”, entre outros tratamentos menos nobres.


Warley Matias de Souza.

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