7 de dezembro de 2016

Discurso de formatura

Professor homenageado
Turma 2016 do Colégio Caetano

A minha relação com o ensino médio é uma relação que se constrói lentamente, dia a dia. No 1o ano, os alunos me tratam com reserva, cuidado, receio mesclado a certa admiração. Pois eu sei que tenho uma fama, que é passada de ano a ano, com ligeiras variações, para as turmas que chegam. Leva algum tempo pra que os alunos consigam perceber o que é apenas uma “fama” e o que é a realidade.
Porém, com vocês, aconteceu algo inédito, que, acredito, jamais se repetirá. Com vocês, eu tive aquele momento mágico que chamam por aí de “amor à primeira vista”. Não houve uma aula, desde a primeira, em que eu não tenha tido enorme prazer em estar com vocês. Nunca vivenciei dramas ou situações desagradáveis ali. E, apesar de eventuais diferenças, nunca tivemos atritos sérios. E isso porque vocês são generosos e especiais.
Minhas opiniões sempre foram ouvidas e respeitadas e sempre me esforcei pra respeitar a opinião de cada um de vocês. Vocês foram tão generosos e receptivos que eu pude mostrar-lhes o mais profundo de mim, apesar de me ocultar muitas vezes em ironias, pois um pouco de mistério torna a vida sempre mais interessante.
Mas, para não dizerem que virei um romântico e estou idealizando uma turma perfeita, devo dizer que nem tudo foram flores. Me estressei em alguns momentos com a preguiça em relação à leitura e fui agressivo na defesa da criticidade em detrimento da alienação. E tive o prazer de ver a luz do conhecimento e da criticidade inundando a mente de alguns que, no início, queriam persistir no conforto da ignorância. Uns evoluíram mais, outros menos, mas todos foram tocados pela luz.
E, no final deste caminho, posso dizer que essa turma tem algo de especial, algo que falta ao mundo inteiro: tolerância. Vocês se tornaram um exemplo de tolerância, no respeito àqueles que têm crenças e àqueles que não as tem, em respeito à diversidade sexual e de gênero, em respeito às etnias e à diversidade cultural, que só pessoas superiores e inteligentes conseguem ter.
Com alguns de vocês, tive uma troca intelectual que não consegui ter com muitos professores, mestres e doutores, pois eles estavam cansados, entediados ou cheios de certezas, enquanto vocês ainda podiam se apaixonar pelas ideias. Agradeço a esses alunos por aguçarem ainda mais meus pensamentos.
E obrigado a toda a turma pelo carinho, que nunca faltou, seja no olhar, na voz, nos gestos, nos apertos de mão ou nos abraços nem sempre frequentes, apesar de um ou outro constante, como o abraço-chiclete do incansável Luquinha. Sentirei saudade.
Quando vocês me homenagearam em outubro, na sala de aula, entendi que eu havia feito alguma coisa, essa coisa tão linda que é construída pela troca de ideias, conhecimentos, afetos e silêncios. Essa coisa que me permite continuar apesar do cansaço e das desilusões.
Enfim, “povo”, estas são minhas últimas palavras pra vocês, melancólicas, condizentes com o tom de uma despedida. Às suas famílias, digo-lhes que vocês, meus alunos, são merecedores de todo o orgulho. Eu tenho muito orgulho de vocês.
Sentirei saudade, sentirei muita saudade de vocês. Mas sei que estarei com vocês pra sempre. Quando disserem “não”, eu estarei com vocês. Quando perguntarem “por quê?”, eu estarei com vocês. Quando se incomodarem com a realidade, eu estarei com vocês.
Obrigado por tudo.

Warley Matias de Souza.

Nenhum comentário:

Postar um comentário