25 de janeiro de 2017

“Apartheid gay”

No século XX, tivemos acesso a um termo, o “apartheid”, que significa “separação”. No caso, separação de negros e brancos, muito associada à África do Sul e a seu violento regime de segregação racial. Mas esse tipo de segregação, não necessariamente devido à cor da pele, ocorreu também em outros países.
Na década de 1930, os alemães, além de várias leis antissemitas, promoveram boicotes nazistas aos estabelecimentos comerciais comandados por judeus e também a criação de guetos, antes dos campos de concentração e da solução final. Nos Estados Unidos, havia lugares reservados a negros em ônibus ou lanchonetes, por exemplo. Aliás, quem nunca ouviu falar de Rosa Parks ou sobre o protesto de Greensboro? Rosa Parks, uma costureira negra americana, em 1955, recusou-se a dar seu lugar no ônibus para um branco e foi presa por isso. Já no ano de 1960, quatro estudantes negros decidiram ocupar lugares de brancos na lanchonete Woolworth’s, o que desencadeou protestos semelhantes por todos os Estados Unidos, protestos que ficaram conhecidos como “sit-ins”.
Pois as mesmas pessoas que assistem a filmes que contam os horrores da segregação e ficam indignadas com tais situações, acham aceitável que gays se reúnam em bares e boates feitas para eles. Muitas dessas pessoas se comportariam hoje como os brancos racistas que discriminaram e agrediram os participantes dos sit-ins se os gays saíssem de seu gueto e manifestassem em massa seu afeto em público como fazem os heterossexuais a todo momento.
Alguns jovens gays vêm quebrando barreiras, seguem o exemplo dos jovens negros de Greensboro, exercem o mesmo direito dos heterossexuais, ou seja, beijam-se em público. É claro que tais beijos não são exibidos sem uma forte tensão, já que a chance de agressão verbal e física é bem real. Imaginemos "sit-ins gays" no Brasil. De repente, os gays resolvem sair do gueto e começam a se beijar em público à luz do dia, nos shoppings, nos bares, nas lanchonetes, assim como fazem os casais heterossexuais. Não preciso dizer que a violência contra gays atingiria a visibilidade.
O “apartheid gay” continua, e a maioria dos heterossexuais acha isso algo completamente aceitável, assim como achava a maioria dos brancos das décadas de 1950 e 1960 nos Estados Unidos em relação aos negros, ou a maioria dos alemães na década de 1930 em relação aos judeus. O “apartheid gay” é realidade no Brasil, e não só aqui. Há restrições não ditas, em ônibus, lanchonetes, lojas e tantos outros estabelecimentos, em relação ao comportamento gay. Assim como o racismo no passado, a homofobia ainda é exercida hoje com certa naturalidade.


Warley Matias de Souza.

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